terça-feira, 28 de outubro de 2008


O jornal do Lux tem um blog. Apanhem-me ali também.


www.blog.luxfragil.com

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sexo do outro mundo


A nova série de Alan Ball chama-se “True Blood”. É sobre vampiros. Um pretexto para denunciar homofobia, racismo...

 A acção da nova série produzida pelo canal HBO “True Blood” situa-se no estado da Luisiana, em Bon Temps, cidade imaginária. Não muito longe de Nova Orleães, a capital que mostrou ao mundo imagens que se julgavam impossíveis de existir nos EUA- estamos no estado que em 2005 foi atingido pelo furacão Katrina. A acção passa-se nos dias de hoje. E qualquer semelhança com a realidade é pretendida.

Num supermercado à beira da estrada, alguns jovens procuram diversão, invadidos pelo tédio, interrogam um vendedor: querem saber se há vampiros ali. Naquelas paragens pensa-se que os vampiros morreram afogados com as inundações provocadas pelo “Katrina”. “Mas os vampiros não precisam de respirar” - detalhe anunciado logo na primeira cena de “True Blood”. Os vampiros já estão mortos de qualquer maneira. No mesmo supermercado, uma televisão emite imagens de um talk-show onde uma senhora explica que, graças à invenção de um sangue sintético, os vampiros puderam finalmente assumir-se na sociedade dos mortais. Fizeram um “coming out”: saídos agora do caixão, pedem igualdade, os mesmos direitos cívicos dos humanos. Por instantes tem-se a sensação de assistir a um debate do mundo real, como se alguém estivesse a argumentar contra a Proposition 8, proposta que visa mudar a constituição estadual californiana para eliminar o direito de pessoas do mesmo sexo de casarem. O tom com que a representante dos vampiros fala é empenhado, como o dos líderes das grandes causas activistas.

No genérico, entre imagens de seitas religiosas e raparigas que se despem, destaca-se um cartaz luminoso que tem escrito “god hates fangs”. Podia ser um slogan homofóbico. Mas não é. “Fangs” são os caninos afiados; fags é um insulto (“panascas”) contra os homossexuais. Em “True Blood” fala-se de vampiros, mas a alusão é clara – com a diferença combate-se a ignorância. Uma mensagem destinada aos grupos religiosos que excluem os que não encaixam nas interpretações que fizeram das sagradas escrituras. Ainda o genérico de “True Blood” não acabou, já a série se empenha em desafiar o mundo. Isto é só o começo.

Sexual e mortal

Os vampiros exercem na ficção em geral um fascínio inexplicável sobre os humanos. Não se trata somente da atracção pela vida eterna; existe um fascínio sexual. Uma carga erótica tem sido atribuída à dentada vampírica. Todas as ficções deste tipo (“Drácula” de Bram Stoker; os livros de Anne Rice) agarraram essa conotação: quando se é mordido – num acto de quase submissão – passa-se a pertencer àquele que morde, para sempre. O deslumbramento pelos vampiros cresce com esta possibilidade de pertença, uma ideia que as histórias fomentam ao longo dos tempos. Estar ligado a alguém eternamente, viver o amor eterno, arriscar a vida.

Não é a primeira vez que Alan Ball, o homem por detrás de “True Blood” se envolve com a morte. Em “Sete Palmos de Terra”, ele construía uma narrativa à volta de uma família que geria uma agência funerária. Durante quatro anos, público e crítica foram conquistados pelo formato original da série. Era complexo, mas plausível. Captava com perspicácia a incapacidade do mundo moderno face à morte, desmitificando-a.

“True Blood”, não parte de uma ideia original de Ball, que foi buscar inspiração aos contos de Charlaine Harris, autora reconhecida num tipo de literatura onde se mistura o real com o além.

Sookie Stackhouse é a personagem principal da sua série de livros, “Southern Vampire Mysteries”. No pequeno ecrã é a actriz Anna Paquin que lhe dá vida.

Sookie trabalha como empregada num bar, vive bem a sua existência de rapariga rural. A sua grande dificuldade consiste em conviver com o seu poder sobrenatural. Ela é capaz de ouvir os pensamentos das outras pessoas.

A vida de Sookie muda quando conhece Bill (Stephen Moyer). Um vampiro que entra no bar onde trabalha porque se sente sozinho, tenta refugiar-se num copo de sangue sintético. A atracção é imediata, o encontro de Sookie com Bill é acompanhado do lirismo próprio do universo de Ball, tanto comove como faz rir na cena seguinte. “Ele é bonito como um actor num filme da TCM” é o que Sookie diz depois de o conhecer. Os olhares deles convergem na mesma direcção. A virgindade de Sookie é corroída pela presença sexual de Bill. Em “True Blood” os vampiros transpiram sexo, falam muito dele.  E são amantes excepcionais, mas é tabu um mortal assumir uma sexualidade com um vampiro. Os que o fazem, são tratados por “fang bangers” e guardam cicatrizes de dentadas profundas. E desde que os vampiros apareceram em Bon Temps há jovens que aparecem mortas. Sobretudo as que se emanciparam sexualmente - as que tiveram sexo com o outro mundo.

As personagens secundárias destacam-se por vincar ainda mais a mensagem política da série. A melhor amiga de Sookie, afro-americana, diz tudo o que pensa sobre a América racista. Quando se cruza com um vampiro pela primeira vez, pergunta-lhe se, ao longo dos seus quase 200 anos de vida, ele possuiu escravos. Lafayette, cozinheiro homossexual, trafica droga, prostitui-se, afirma que pela cama dele terão passado homens que ninguém imaginaria. É o oposto de David Fisher, de “Sete Palmos de Terra” que vivia a sua homossexualidade com uma relação estável, chegando a adoptar crianças. Nesta nova série, Ball parece querer quebrar todos os padrões de comportamento que criou. Desde que os episódios começaram a ser exibidos no passado dia 7 de Setembro na HBO, ainda não se encontrou nas personagens a mesma complexidade psicológica de “Sete Palmos de Terra”. Ainda é tudo muito estereotipado. Os críticos Americanos não têm sido unânimes no julgamento que fazem ao esforço inovador de Ball. Muitos dizem que não chega. A revista “Time” anunciava com humor, dois dias antes da série estrear, que era necessário pensar de imediato numa transfusão. E o “New York Times” vincava que as mensagens de alusão nos diálogos ao racismo nunca chegavam a ter eficácia do genérico inicial.

Alan Ball disse numa entrevista à HBO que o importante para a sua série depois de estrear era poder ter uma vida própria. Empenhado em fazê-lo e, quatro meses antes de se poder ter uma ideia de como seria realmente um episódio de “True Blood”, a internet já tinha sido invadida.

Num esforço imaginativo, dezenas de vídeos foram postos on-line, com debates sobre a aceitação de vampiros no mundo, sendo possível recolher informações sobre a American Vampire League, conhecer as razões que levam os membros da instituição Fellowship of the Sun a proteger a humanidade de vampiros. Foram feitas campanhas publicitárias para a bebida de sangue sintético (também ela com um “site”). Em Bloodcopy.com, podemos seguir testemunhos inéditos das personagens de “True Blood”. Houve ainda tempo para imaginar campanhas contra a discriminação (iguais às que se fazem contra o racismo) ou anúncios de motéis com caixões disponíveis. “True Blood” tem vida própria, confunde-se com a nossa realidade. Como lembra uma personagem ao longo do primeiro episódio... Saberemos nós o número certo de pessoas que andam por aí a ter sexo com vampiros?

 www.bloodcopy.com


Tiago Manaia

Texto publicado no suplemento do jornal público, ípsilon 17 Outubro 2008.

 

 

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tiga ao telefone de Montreal


Queria começar por lembrar algumas das tuas primeiras vezes...

A tua primeira festa?

Foi na Índia, em Goa. Devia ter 8 ou 9 anos. Era uma espécie de rave na praia, com hippies europeus. Os indianos vendiam cigarros, chá e jogavam às cartas. Era ao pé deles que eu queria estar, eles apostavam dinheiro. Os meus amigos insistiam para que fumasse um charro, mas eu tinha medo.

 E quando é que fumaste o teu primeiro charro?

Muito mais tarde. Foi na época das rave parties em 93. Estávamos num campo de futebol e tive a reacção típica: fartei-me de rir, achei que a relva do campo estava muito verde, que era tudo muito bonito.

 O teu primeiro pecado?

Eu nunca pequei, nunca tenho sentimentos de culpa. Podemos errar, nunca pecar.

 A tua primeira vez em Lisboa?

Foi no Lux, há 6 ou 7 anos. Foi dos primeiros sítios onde toquei na Europa. E não me lembro bem onde dormi...

 A primeira vez que pensaste, “sou um DJ”...

Quando tocas para um grupo de pessoas, já és DJ, mesmo que sejam só 15 miúdos numa cave. Com 18 anos, arranjei um trabalho numa discoteca R&B, estavam fechados durante uma semana e deixaram-me pôr música... Acho que ainda não usava o meu nome. As pessoas que frequentavam a discoteca era as mesmas das noites R&B... E eu só tinha 20 discos de techno pesado. Tive de tocar todas as canções, de todos os discos.

As raparigas de cor vinham gritar comigo, “What are you doing?”

Lembro-me dos 50 dólares que me pagaram e daquelas pessoas todas zangadas comigo... Lembro-me de ter poucos discos!

Mesmo assim adorei.

O feeling de ser DJ, sente-se no final de noite... Quando a discoteca fecha, quando estão a limpar tudo e tu arrumas os teus discos... Quando falas com o empregado do bar sobre a noite, quando recebes o teu dinheiro...

 Que tipo de pessoa eras tu quando andavas no liceu? Eras intelectual ou eras daqueles tipos sexy, muito populares?

(Risos) Era muito parecido com aquilo que sou agora. Era um bocado estranho. Não fazia parte do grupo de pessoas cool. Tinha o cabelo muito comprido, era tímido. Não havia nada em mim que fosse normal: o meu nome não era normal, a minha família não era normal, era muito pequeno e não era bom em educação física! (risos)

Mas o meu sentido de humor foi sempre a minha grande força, e eu era um rapaz engraçado.

 E depois tornaste-te num dos DJs mais conhecidos do mundo.

És um DJ com dinâmica de estrela da pop. A tua imagem é muito forte...

Eu não sinto as coisas assim, mas talvez seja o que se vê de fora. Quando falo com pessoas, quando trabalho, quando faço música, não é essa a minha perspectiva. Para mim a imagem é como uma experiência artística. Imagino as capas dos meus discos como uma criança, como a visão que ela teria de uma estrela. O David Guetta ou o Bob Sinclair... Esses sim, são estrelas.

 Então o Tiga que o público conhece não é uma espécie de personagem que inventaste?

É complicado... Eu acho que é um bocado uma personagem. Para mim a imagem sempre foi uma coisa divertida, de fora talvez pareça que levo as coisas demasiado a sério... Mas só me estou a tentar divertir, tento experimentar coisas com outra identidade.

 Vamos falar do teu primeiro álbum a solo “Sexor” (2006).

Os dois primeiros singles tinham voz: em “You Gonna Want Me” usavas a voz do Jake Shears e, no segundo “ Far From Home” eras tu que cantavas... Acho que depois ficámos todos à espera de te ver cantar durante os teus DJ sets, ou pelo menos que fosses nessa direcção...

Bem... Nos últimos 5 anos, eu tenho pensado nisso todos os dias. A evolução natural das coisas, seria dar concertos. Mas sempre fiquei muito nervoso com essa transição, passar de DJ para cantor. Sinto-me tão confortável na minha posição actual. Ser DJ era o meu sonho de miúdo, eu cresci num mundo de techno, onde ser DJ era o objectivo.

Mas como tu dizias, quando o meu álbum saiu devia ter começado a dar concertos. Se não o fizer agora, vou deixar um vazio qualquer.

Sentes muita pressão exterior?

Sim. Toda a gente, mas mesmo toda a gente. O meu manager, as pessoas que trabalham no meu label, os meus fãs... Mas sabes, a vida é igual para todos... Há coisas que sabes que tens de fazer, mas tens de te obrigar a fazê-las. Com o último álbum eu pensei: vou esperar e ver como o público reage à música, ver o que acontece. Depois tive preguiça e nunca o fiz. Desta vez vai ter de ser.

 E gostaste da resposta que o público deu ao disco?

Sim, muito. Eu não gosto de demasiado “hype” à volta das coisas. Acredito numa reacção justa. Acho que tudo o que fiz até agora foi sempre bem recebido. “Sexor” era um bom álbum, mas não era incrível. A única coisa que me desiludiu, foi o single “You Gonna Want Me” parecia-me ser um hit. Quando o toco em qualquer do mundo, todos sabem a letra de cor. Do ponto de vista comercial, com as vendas, fiquei desiludido.

 Uma vez vi uma entrevista tua num canal de televisão francês, na Pink TV...

Sim, isso foi engraçado.

Dizias que todos os teus ídolos eram gay...

Engraçado, ontem li um artigo, em que se dizia que a homossexualidade era um produto da educação superior. Diziam que sociedades educadas, com muita cultura, tinham uma comunidade homossexual maior. Digo-te isto, porque concordo com a ideia. Quando volto atrás e penso nos poetas, escritores, músicos de quem gosto... Muitos são gay. Nos cinema, adoro o Fassbinder, todos os anos arranjo uma desculpa para voltar a ver os filmes dele. Na música, tenho ouvido Morrissey e como é óbvio os Smiths, são incríveis. Também costumava ouvir muito Marc Almond, mas já o ouvi demais. Eu gosto de pessoas. Seja o Prince ou o Bowie, o que eu gosto é de liberdade.

A imprensa usa o termo metrosexual quando se refere a ti. A palavra metrosexual faz-me ficar na dúvida... O que é que querem realmente dizer com isso... Parece-me que estão justificar qualquer coisa... do género ele é heterossexual, apesar de parecer gay...

Eu não gosto dessa palavra. Faz-me pensar em pessoas como o David Beckham, homens que compram muitos cremes para se tornarem perfeitos...

E tu não és assim...

Não... Nem por isso... Eu não tenho medo daquilo que posso ser ou parecer aos olhos dos outros. Quando olho para mim na capa de um disco, só quero pensar que estou bem. Às vezes isso significa que tenha de estar nu, ou que vista um fato. Mas se és um homem e apareces numa fotografia a usar maquilhagem, é obrigatório, as pessoas têm de dizer qualquer coisa.

 O que é que vai mudar com o próximo álbum?

É a primeira vez que vou falar dele, está praticamente pronto. A grande diferença é que foi escrito como um disco normal. É um álbum muito mais musical, as canções são melhores. As músicas vão na mesma direcção de “Far from Home” e “Good as Gold”.

 Gosto muito das letras que escreves...

Então vais ficar mesmo satisfeito desta vez. (risos)

Elas vão em todas as direcções, é um mundo surreal... Em que te inspiras?

Em temas como “Pleasure Ffrom The Bass”, a letra existe para apoiar a batida e não tem um significado particular. Mas depois existem letras que escrevo a partir de um sentimento específico. Começa sempre com uma frase e algumas palavras. “Far From Home” falava de viagens, tentei captar a coisa sentimental que sentimos quando estamos longe dos nossos amigos. “3 Weeks” é sobre a morte da minha mãe.

Quem são as pessoas que estão a trabalhar contigo no próximo álbum?

Não te vou contar muita coisa... Basicamente são as mesmas pessoas que trabalharam no outro (Soulwax), mais o Gonzales e o James Murphy. Conhecer o Gonzales foi como encontrar um irmão.

Porque é que assinas alguns dos teus trabalhos com o nome Dove?

(Risos) Não tem nada a ver com paz. Começou quando eu era novo, era uma personagem de filme que matava pessoas e deixava na mão das vítimas a fotografia de uma pomba. Devo ter achado que era perigoso e exótico. Mas foram os meus amigos que me começaram a chamar assim. Eu nunca lhes pedi nada, ou talvez tenha pedido... (risos) não tem nada a ver com a realidade.

Fala-me das versões que costumas fazer com músicas de outros artistas. Quem trata das autorizações, tu ou a tua editora? Tens algum contacto com as pessoas que cantam o original?

A maioria delas são feitas sem pedir nada a ninguém, por exemplo a versão de “Hot in Here” do Nelly, foi feita numa perspectiva de fã. A música estava em todo o lado, na televisão, na rádio e eu estava num estúdio... Pensei, vou fazer a minha versão! A vantagem de fazer música quando se é DJ, é que pode ser testada de imediato. O que é uma ideia engraçada à tarde, pode ter uma reacção completamente diferente nas pessoas à noite. É credibilidade instantânea. Mas nunca tive nenhuma reacção do Nelly. Acho que muitos dos tipos do hip hop, nem sequer percebem, devem pensar, quem é este gajo que está ali a cantar a minha canção?

 Depois de tantos anos a viajar pelo mundo, acho que nos podes dar um conselho. Como é que se organiza uma mala de viagem?

(Risos) Essa foi a melhor pergunta que já alguma vez me fizeram. É o que eu sei fazer melhor! Juro! Tenho todo o tipo de bagagens, malas para partir durante um dia, outras para dois ou para uma semana... Tenho de dizer isto às pessoas que pagam para me ver: o dinheiro que ganho é investido em malas de viagem!

Passo muito tempo sozinho, posso perder tempo a pensar nessas coisas. Um conselho: levem sempre as coisas de que gostam com vocês.

É importante ter papel e uma caneta comigo. Há algo de muito inspirador no movimento. É fácil ter ideias num avião, na altitude. Quando se ouve música num avião, existe uma emoção natural. Viajar é a coisa mais mágica que existe no mundo.

 Como é que gostavas de ser lembrado?

Gostava de ser lembrado como o rapaz mais engraçado de sempre... Mas tenho ainda muito trabalho pela frente.

 Queria acabar com uma pergunta que fiz uma vez a Dita Von Tesse...

Ela já esteve no Lux!?

 Sim, várias vezes...

Acho que a falhei por pouco, estive aí pouco tempo depois.

Diz-me então, a banda sonora ideal para um striptease?

É aquela canção do Seal (risos e começa a cantar) “Kiss From a Rose”... I’ve been kissed by a rose... Isto era de um filme...

Sim, acho que era de um Batman...

(Canta) I’ve been kissed by a rose... Isto é a música ideal para um espectáculo de strip. Existem dois tipos de striptease: o muito lento e romântico e, o striptease de festa. Eu gosto do que é mais lento (risos)... Mas é um bocado pessoal.

 Tiago Manaia

Publicado no jornal Luxfrágil, Out 2008

 tiga.ca

myspace.com/officialtiga

Para o Pedro


Encontrei o teu apelido riscado numa esquina. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

As imagens de Slimane



Glamorous Indie Rock & Roll

 

No verão de 2007 durante o festival de música de Benicàssim, em Espanha, Hedi Silmane seguiu fãs e protagonistas da nova cena musical alternativa. Gritos, jovens exaltados e imagens de ícones como Amy Winehouse são agora reunidos numa mostra e em três livros.

Hedi Slimane diz, esforça-se e vinca nas entrevistas que se sucedem na imprensa internacional que nunca pensou seguir o caminho da moda, mas foi através dela e das silhuetas que criou, primeiro para a Yves Saint Laurent e depois para a Dior Homme que o seu nome se tornou célebre. Numa tentativa de encontrar a beleza em proporções quase matemáticas, reinventou a silhueta masculina. Um ano e meio depois de ter abandonado definitivamente o ateliê da Dior e temporariamente as passerelles de moda, as proporções inventadas por Slimane continuam a ser copiadas pelas principais marcas de prét- à- porter.

Era quase uma criança quando comprou a primeira máquina fotográfica. Não gostava de escrever, por isso fotografava o mundo. Em 2005 era óbvio, Slimane inspirava-se na cena rock alternativa para criar roupa e uma atitude nova, vestia estrelas confirmadas como David Bowie, fotografava jovens em plena explosão, como os membros do grupo Razorlight que transportavam a sua moda para a rua. Um fenómeno. Tinha tudo de um incêndio, a rapidez com que o mundo consumia as suas visões de estilo.

Todos os meses e com a ajuda de Alex Needham (editor da cultura do jornal britânico The Guardian e cronista no New Musical Express), escolhia uma banda emergente nos pubs de Londres. Fotografava concertos e público, as fotografias passaram a ser publicadas mensalmente na revista Americana V.: chamavam-lhes Rock Diary, mostraram o nascimento dos Artic Monkeys, The Rakes ou The Paddingtons.

O que terá levado Slimane a escolher o novo Rock?

O artista explicou a sua escolha, comparando-a ao mundo depois do 11 de Setembro: “o virtual da música electrónica tornou-se absurdo, era necessário improvisar novamente, encontrar uma forma de humanizar (...) Nasceu uma espécie de estética da imperfeição, por isso o regresso do rock, dos discos gravados em estúdio sem qualquer tipo de retoque” anunciava ao Le Monde, era tempo de desconstruir.

 

Uma estética que se tornou ética

O Musac, Museuo de Arte Contemporáneo de Castilla y León, encomendou e Hedi Slimane misturou-se durante quatro dias com a multidão que assiste todos os anos, a um dos festivais de música mais importantes da Europa, o festival de Benicàssim, fotografando o seu ambiente apocalíptico: jovens –é óbvia a mimesis com os ídolos - exaltados, exaustos, com sorrisos metálicos de aparelhos dentários, com t-shirts, sem t-shirts e com tatuagens. O lixo que se acumula no chão no final de cada noite, o fumo que sai do palco e, sobretudo, os bastidores aos quais Slimane teve acesso, estão nas fotografias. Amy Winehouse de costas, ou Lovefoxx, a vocalista dos Cansei de Ser Sexy, a dançar, parecem-se com qualquer um dos adolescentes que vibram a assistir aos concertos de Benicàssim. Tocam-se na aparência e comunicam através da música.

É ela que guia os sentimentos ali vividos. Para a maioria, não existe verão sem um festival de música como as fotografias de Slimane não existem sem jovens.

A acompanhar a exposição que pode ser vista até dia 7 de Setembro no Musac, foram editados três livros: um com as imagens de Benicàssim, outro com imagens do passado -Pete Doherty, Courtney Love ou Beck- realçando a ideia de que Slimane se debruça sobre o Rock há já alguns anos, e um terceiro com textos, onde o trabalho de Slimane é defendido de forma inteligente. Nele, Jon Savage, autor do livro Teenage-  The Creation of Youth Culture, descreve os fãs ao longo da história, Alex Needham, cúmplice dos Rock Diary aborda as influências existentes nas suas fotografias: Pennie Smith que fotografou a capa de “London Calling” dos Clash ou Anton Corbijn, realizador do filme “Control”. Vince Aletti jornalista da Rolling Stone e crítico de fotografia diz que talvez Slimane não seja aquilo que Cornell Capa chamaria um fotógrafo com preocupações (concerned photographer), mas Capa descrevia certamente a sua prática quando dizia que “o papel de um fotógrafo é o de testemunhar e estar envolvido com o seu assunto”.

O comissário da exposição Agustín Perez Rubio fala da aura que imana das imagens de Slimane, da identificação que elas provocam no espectador; para Rubio, Slimane tem uma visão própria, mantendo-se fiel à sua estética, sem seguir tendências, tem um ponto de vista: é um artista para quem a estética se tornou ética.

Glamourous Indie Rock & Roll é uma faixa dos The Killers, gravada em 2004. Fala de o aparecimento de um novo som, de uma cena emergente. Na época pressentiam que ia conquistar o mundo. Juravam que vinha da alma. Tinham razão, está a acontecer, agora.

 

Tiago Manaia

Julho 2008

Texto publicado na revista L + Arte, Agosto 2008

 

Rock Diary de Hedi Slimane, editado pela JRPINGIER e MUSAC

 

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Dois anos de Lisboa

Música do filme "Volver" de Pedro Alomodovar.



sexta-feira, 4 de julho de 2008

Dita Von Teese - entrevista

























Podia dizer que esteve sentada à minha frente com um chicote. Mas eu estava mesmo em Lisboa, na chuva, ela na cidade do anjos... Fica aqui uma parte da entrevista publicada na fanzine do Lux em Fevereiro 2008.

Qual é tua memória de adolescência mais forte?

Talvez o meu trabalho como empregada numa loja de lingerie e o meu namorado “super-hot” que jogava pólo aquático... Acho que só voltei a ver homens tão excitantes em Portugal!
No liceu eras uma rapariga popular?
De certa forma sim... Não era uma rapariga que tivesse muitos amigos, tinha uma amiga próxima chamada Brooke. Ela e eu formávamos um par ambíguo: namorávamos com rapazes mais velhos e vestíamos de forma estranha, com roupas «vintage». Toda a gente sabia quem nos éramos, nós sabíamos quem eram os outros, mas não fazíamos propriamente a «coisa social». Nós odiávamos o liceu.
O que fizeste na primeira vez que os teus pais te deram autorização para sair à noite?
Não me lembro... Nem me recordo de ter uma autorização... Simplesmente ia... Fazia o meu trabalho, tinha boas notas na escola e um namorado. Não era uma “party girl”. As minhas noites
fora de casa eram passadas com o meu namorado em casa dele.
Imagino-te miúda a ensaiar espectáculos sozinha no teu quarto, é verdade? O que fazias?
Só me lembro de actuar - não eram espectáculos de striptease, claro – para a minha família, quando era miúda. Brincava toda produzida sozinha no meu quarto em frente ao espelho. Costumava roubar e experimentar a lingerie da minha mãe.
A tua primeira recordação musical?
Adorava as canções da Barbara Streisand dos anos 60.
Conta-me como era o ambiente, e o que sentiste durante a tua primeira actuação...
É difícil dizer como foi a primeira vez... Fiz ballet toda a vida e depois, quando era adolescente, actuava em discotecas que faziam raves. Só mais tarde comecei a trabalhar num bar de strip... Nunca houve assim um grande momento que pudesse chamar a grande estreia. Foi uma coisa contínua... Umas coisas levaram a outras.
Disseste várias vezes que tinhas trabalhado muito para chegar onde chegaste. Qual é que achas que foi o ponto de viragem da tua carreira?
Mudou tudo muito rapidamente depois de ter feito a capa da Playboy. Isso foi a maior mudança. Depois houve a actuação que fiz em Londres numa festa da Jade Jagger... Provocou um efeito “splash” na imprensa.
Como te lembras da tua época mais underground? Como era quando actuavas em discotecas mais pequenas na Califórnia? Tens nostalgia desses tempos?
Bem, não eram discotecas assim tão pequenas. Foi na época da cena rave em Los Angeles, entre 1989 e 1992. Aquilo era gigante! E sim... Tenho saudades dessas noites, saudades de poder «passar-me» sem ninguém a olhar para mim ou a julgar-me. Poder
dançar sozinha na pista a noite toda.
Qual foi a coisa mais estranha que te aconteceu durante uma actuação?
Apagaram-me as luzes uma vez, numa discoteca porque pensaram que ia ficar completamente nua! Tinham medo de ser multados. Foi em São Francisco em 1999.
Se pudesse dar um passeio nocturno contigo, onde é que me levavas... Se estivéssemos em Nova Iorque?
Não dou propriamente passeios em Nova Iorque, não é a minha cidade.
... em Paris?
A qualquer lado! Amo todos os centímetros de Paris
... e em Vegas?
Levava-te a passear pelo meu quarto de hotel gigantesco, de 2400 metros quadrados, onde vivi, no MGM Grand, quando estive a actuar no Crazy Horse! It’s massive!
Onde fizeste a tua melhor performance?
O espectáculo que fiz na gala Louis Vuitton em Paris parece ter ficado na cabeça das pessoas, bem como um que fiz em Cannes no jantar da Amfar. Montar um batom gigante e giratório da Viva Glam, é uma excitação para o público.
O que pensas dos strips masculinos?
Gostava que existisse qualquer coisa como um strip masculino elegante e sofisticado. Eu consigo imaginar algo assim mas infelizmente, os espectáculos existentes não parecem ter em conta mulheres com os mesmos gostos que eu... Eu e muitas pessoas que conheço! Eu podia criar um show burlesco que teria um lógica de tolerância zero em relação a coisas foleiras.
Quem é que achas que se sente mais ameaçado pela tua imagem de sex symbol: os homens ou as mulheres?
Eu sei que maioria dos meus fãs são mulheres que se sentem inspiradas a conhecer a sua “inner sexbomb”.
Preocupam-te as reacções das pessoas ao teu espectáculo?
Nope! E se me preocupasse servia para quê? Nunca vamos estar todos de acordo sobre o que é a beleza, o que é o talento, o que é bom e o que é mau. Seria absurdo tentar agradar toda a gente. Faço isto à minha maneira, como qualquer “entertainer” deve fazer.
Qual é o teu fetiche?
Roupas que exageram as formas femininas
A banda sonora ideal para um striptease?
A coisa mais importante é escolheres uma música que tenha algum significado para ti.
Conta-me um segredo?
Não!
Como é que gostarias de ser lembrada?
Como uma grande estrela do burlesco. Lá em cima, ao lado de gente como Sally Rand, Gypsy Rose Lee and Lili St. Cyr...
Tiago Manaia
ps: vejam um strip no link carregando no link em baixo, ajuda a perceber.