Mostrar mensagens com a etiqueta Luxfrágil. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luxfrágil. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Del Marquis, entrevista






















Del Marquis, assim se chama o guitarrista dos Scissor Sisters .

Aqui fica uma entrevista feita ao telefone para o jornal do Lux.

São dez da manhã em Nova Iorque, mais cinco em Lisboa, Barack Obama acabou de ser eleito.




Como é que te devo chamar, Derek ou Del Marquis (nome de cena)?

Podes tratar-me por Del…

Como estás?

Estou bem, estou a acordar.

Onde estás? Em casa?

Sim, estou nas escadas de minha casa, na rua. Está calor, apesar de estarmos em Novembro.

Acredito que tenhas estado a festejar a vitória do Obama, nos dois últimos dias?

Sim, mais ou menos, é incrível… Foi incrível, as ruas onde vivo em Brooklyn ficaram cheias… Cheias de pessoas a gritar e a festejar… Houve tanta euforia. Mas infelizmente nos dias que seguiram a eleição de Obama, surgiram notícias de que em três estados americanos (Florida, Arizona, Arkansas) uma lei para proibir a união de pessoas do mesmo sexo tinha passado… Por isso foi uma vitória com sabor amargo.

Mas as pessoas estavam distraídas com as eleições, pouco se falou desses “referendos”…

Talvez não tenham tido a atenção necessária, mas para mim é muito importante. Imagino que com um presidente como o Obama este passo seja rapidamente remediado… E tudo isto será risível daqui a uns anos. Como eram os direitos civis dos afro–americanos há não muito tempo.

O que farias tu à Sarah Palin?

Não sei! Se o McCain e a Palin tivessem sido eleitos, sabia exactamente o que nos ia acontecer. Íamos de “patins para o inferno”… Tínhamos de nos preparar para o apocalipse (risos). Vivemos realmente uma época de mudança, mas podia ter descarrilado em qualquer um dos sentidos.

Estarias pronto para deixar a América?

Não. Eu não iria deixar a América, estaria pronto para viver no apocalipse!

Vamos falar do teu projecto… Estás a preparar-te para lançar um projecto a solo, sem os Scissor Sisters…

Sim. Passei uma parte do ano a trabalhar num álbum. Gravei músicas um bocado em toda a parte, na Europa e em Nova Iorque. Foi fantástico! Foi um processo de trabalho tão diferente daquele que tenho com os Scissor Sisters! Tenho imenso orgulho. Vai ser editado um primeiro EP agora em Dezembro… Espero que as pessoas o oiçam.

Quantas músicas tens?

Devo ter gravado umas 20. Vou pôr três ou quatro canções para cada EP e lanço vários no próximo ano, juntando-lhes remixes e vídeo.

Porque é que escolhes editar as tuas músicas nesse formato de EP?Achas que as pessoas já não compram um álbum inteiro? É uma maneira de fazer face à crise da indústria discográfica?

Existem várias razões. Não sei se quero admitir essa que acabaste de referir. Parecem-me existir demasiados estilos nas minhas canções. O EP foi a maneira que encontrei para concentrar temáticas, dei um tema diferente a cada um deles. É interessante pensar nestes discos como episódios… É difícil lançar um álbum sozinho e sou eu quem está por trás de tudo… Imagina… Lança-se tudo num só álbum, se não tiver uma boa resposta, acaba ali. Vou poder fazer de cada EP um acontecimento.

Qual é o tema do EP, que vai ser lançado agora?

O primeiro segue a linha da canção“Hothouse”. A letra fala da raiva que senti relativamente à administração de Bush, como os direitos dos homossexuais e lésbicas eram usados como ferramentas de divisão durante o seu mandato. Neste primeiro disco as músicas são todas muito melódicas.

Começamos por ouvir crianças dizer “liberdade de expressão”…

Sim, é pela liberdade, era importante para mim, são os filhos de um amigo que apareceram no meu estúdio de gravação… Foi um acaso feliz.

E de onde surge a vontade de assumir um projecto sozinho?

Eu senti essa necessidade. Nos Scissor Sisters sou guitarrista, toco guitarra, não canto. Mas tenho muitas ideias, escrevo muita música. Por isso tinha de acontecer.

Com os Scissor Sisters tentaste alguma vez cantar?

(risos) Oh sim, tentei… Mas eles tiraram-me o microfone… Eu queria cantar… (risos) e eles preferiam ver-me a correr de um lado para o outro em cima do palco, não me queriam perto do microfone! Eu não gosto de me sentir preso a nada… Ainda não sei se gostava de ser o líder de uma banda. Nos Scissor posso esconder-me por detrás da minha guitarra.

As pessoas descrevem-te como o membro mais tímido da banda, mesmo assim, tens uma presença forte em palco… tens consciência disso?

Eu faço parte de uma banda, que tem algumas das personalidades com maior presença em palco NO MUNDO! (risos) Qualquer pessoa ao lado deles fica transparente… é verdade! Mas eu sinto-me feliz com eles.

Contas com colaborações em algumas canções… Quem são?

São pessoas que conheci em festivais de música. Quando andas em digressão acabas por conhecer imensa de gente que se cruza inúmeras vezes em cidades diferentes… Foi assim que conheci a Vula que canta com os Basement Jaxx. A Joan (Joan as Police Woman) já a conhecia há imenso tempo. Dividimos casa quando comecei a trabalhar com os Scissor. Foi ela quem me ensinou as regras de sobrevivência no meio.

A nossa conversa é cortada, porque descubro um problema no suporte que grava a entrevista. Volto a ligar para Del Marquis e não nos conseguimos ouvir durante um longo momento…

Estás a ouvir-me?

Sabes que a frase “estás a ouvir-me”, é usada em quase todas as conversas telefónicas (risos).

As tuas letras parecem ser emotivas…

Bem, eu nunca tinha escrito letras, compunha somente música e estava sempre a cantar coisas escritas por outros. Foi difícil escrever letras, tentar perceber se aquilo que ficava escrito não era um enorme cliché.

Dizias que a Joan te deu alguns conselhos quando entraste no mundo da música… O que é que fazias antes de te juntares aos Scissor Sisters?

Estudava design de móveis, numa escola chamada Parsons, trabalhava comodesigner… Eu já tocava guitarra, mas era uma coisa que fazia em casa. Nunca tinha tentado estar numa banda pop, não fazia audições. Gostava de design, aquilo parecia ser o meu caminho…

(ouve-se o barulho de uma ambulância, logo de seguida um alarme de automóvel dispara… Del Marquis deixou as escadas do seu prédio e caminha agora em Brooklyn)

… A música para mim era um sonho, não era uma coisa possível. (o alarme de automóvel torna-se ensurdecedor, obriga-nos a um minuto de silêncio)

Desculpa, temos alarmes de carro a disparar e ambulâncias a passar (o alarme pára de tocar) isto vai dar uma óptima “colagem” para a tua entrevista (risos).

A primeira vez que te vi com os Scissor Sisters foi numa sala minúscula em Paris… Era uma cave?

Sim, depois voltei a ver-vos no Wembley Arena, já vocês tinham lançado o segundo álbum. Uns meses depois, aqui em Lisboa, o vosso concerto estava cheio de secretárias loucas, gritavam as vossas canções! Era suposto vocês terem-se tornado num fenómeno tão mainstream? O sucesso não muda tudo?

É óbvio que o sucesso muda tudo! Mas não existe nenhuma regra que impeça o alternativo de ser popular. Nós não queríamos fazer parte de um nicho, ser sempre marginais. Queríamos ser a melhor e, a maior banda – era essa a nossa intenção! (risos) E as músicas eram demasiado boas, demasiado pop para serem ignoradas. Claro que, quando te tornas numa banda popular, perdes pessoas no caminho. Deixas de ver aqueles que vinham aos concertos pequenos… porque já não podem pagar bilhetes àquele preço, ou simplesmente porque já não nos querem ver. Porque nos tinham descoberto em primeiro lugar… “é um pau de dois bicos”. Tentas atingir o maior número de pessoas, e perdes outras tantas pelo caminho.

Li que odiaste o primeiro concerto que viste dos Scissor Sisters. Ainda antes de fazeres parte da banda…

Bem… Odiar é a expressão dramática para a coisa! Não gostei deles. Julguei-os como provavelmente todas as pessoas julgam aquilo que é novo. Não gostei, talvez por causa do playback. Mas depois mudei de perspectivas, descobri algo de especial na banda. As pessoas envolvidas são especiais, as músicas também. Tudo o que vem da nossa banda tem um mérito, é uma banda realmente interessante. Teria cometido o erro da minha vida se tivesse recusado trabalhar com eles (risos). Jesus!

Em adolescente, eras groupie de guitarristas importantes?

Sim era… Mas não éramos todos? A música excitava-me… Eu era o tipo de adolescente que para além do álbum, procurava edições de coleccionador das coisas. Tentava ficar na primeira fila dos concertos para saltar em seguida para o palco, apanhar a set list. Era o que eu fazia. Se tivesse sorte, ficava até mais tarde e tentava conhecer as pessoas que faziam parte da banda. Os músicos significavam tanto para mim!

E agora: tens groupies?

Aqui no perímetro de Nova Iorque talvez tenha uns quantos. Mas são todos muito simpáticos, educados e inteligentes. Tenho sempre um plano na cabeça para fugir se forem muito estranhos. É diferente alguém que olha para ti e tenta queimar um buraco na tua alma, e alguém que vem ter contigo e te diz “obrigado, adorei o teu concerto - gosto da tua música”.

Lembras-te quando começou a tua atracção pelas guitarras?

Foi na altura em que tinha uma obsessão por objectos, foi por isso que comecei a desenhar… Tinha um fetiche por objectos. Lembro-me de pensar que as guitarras eram estupendamente bonitas. Gosto de música e gosto de objectos. Pensei… Deixa-me então tocar nesta coisa fálica, bonita e brilhante… Capaz de fazer muito barulho.

Lembras-te da tua primeira saída?

Em meados dos anos noventa falsificava-se o bilhete de identidade para sair à noite em Nova Iorque. Devia ter 16 ou 17 e fui a um bar quente e suado… Muito gay. Entrei e fiquei estupefacto, estava extremamente cheio, eu não estava preparado para uma experiência assim. Tive de fugir.

Mas já sabias que eras gay?

Sim, tinha feito o meu coming out adolescente, com 15 anos.

Explica-me o teu fascínio por calças de toureiro?

Existe qualquer coisa na estrutura, todas aquelas calças têm uma parte dura quase como um corpete. Faz com que fiques direito, de cabeça erguida. Cria uma silhueta bonita. E não é segredo nenhum, sou fã do Prince. Não só da música, também das suas roupas. Fui buscar elementos às pessoas que admiro.

Acabo com um assunto pessoal… Conta-me o teu primeiro beijo.

Meu Deus! Foi com um rapaz chamado Sérgio, eu tinha 17 anos. Foi em Roma… Mesmo em frente ao Castel Sant’Angelo.

entrevista publicada no jornal lux frágil, Dezembro 2008

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Somos cavaleiros, cavaleiros nocturnos.

Percebi há pouco tempo, que as pessoas que situam a vontade de viver durante a noite, são consideradas “espécie” pela parte de população que se decidiu por um quotidiano diurno.  Estou a falar de moral, não me refiro à disciplina. Porque conheço dezenas de pessoas da noite disciplinadas. Que decidiram mesmo presentear o dia – a–  dia, com alvoradas constantes, ultrapassando o obstáculo que podem ser noites passadas em claro. Vindo assim do escuro, para enfrentar a luz da realidade. Nem que seja somente por uns dias, para mais tarde serem levados novamente para a calma da escuridão.

Existem mesmo seres nocturnos que se adaptaram eternamente às regras do dia. Aos horários impostos. Eles, aceitam a moral daqueles que pensam que a noite não traz nada de útil e convivem com ela. Mas libertam-se quando conseguem. Sabem da magia que o outro lado do dia esconde. Em bancos, consultórios médicos, parlamentos ou teatros de vida inventada. Estamos constantemente rodeados de pessoas da noite que vivem também de dia. E acredito eu, não haver distinção possível – acredito na mistura dos dois. Ou acredito que todos, todos nós tenhamos conhecido pelo menos uma vez o sabor de noites passadas em claro. A reconstruir o mundo, a esquecer mágoas na pista de dança. A procurar soluções no brilho das luzes que se acendem no escuro. Para que não se falhe nesta e na próxima vida.

 

Fui surpreendido quando há pouco tempo, fui tratado de “homem da noite”, por uma senhora que aparenta ter a sua moral bem arrumada. Dentro da cabeça e nos sentimentos que se exprimem através do seu corpo. Percebi que para ela, um tipo como eu era “espécie”. E ser “espécie” não é obrigatoriamente mau, mas deixou-me a pensar. Eu que nunca lhe tinha falado dos poetas magníficos, com quem me cruzei nas minhas batalhas contra o sono. Nem de festas inesquecíveis, dos testemunhos sinceros que nelas encontrei. Se calhar devia tê-lo feito. Como um cartão de visita.

Como podia então surgir na sua cabeça uma expressão que fazia de mim um “homem da noite”?

Na minha aparência diurna, nunca deixei traços de tudo aquilo que já vivi na escuridão. Digo mesmo que as t-shirts com os desenhos mais extraordinários servem o dia, conseguem passar despercebidas nesta uniformização geral do estilo.

A senhora atentava então à minha moral, ao tratar-me de “homem da noite”.

Insinuava vício e sexualidade duvidosa. Uma evidência que a seus olhos me impossibilitaria de equilíbrio. O “homem da noite” na sua boca queria dizer isto. E nada parecido com as melhores festas do mundo, a música que nos cola à pele, a beleza de um sorriso provocado pelo abandono.

Estava a ouvir aquilo de uma pessoa igual a tantas outra e a expressão ficou comigo. Certamente por encontrar nela, aquilo que considero ser uma moral tipicamente Portuguesa. Esta moral que supostamente nos mete todos ao lado um dos outros, mas lá no fundo pensa sobretudo em compartimentar a diferença.

“O homem da noite” intrigou-me. Decido procurar respostas à minha volta, desafio amigos e conhecidos. Bancários, artistas, advogados, jornalistas, críticos de teatro e dança, corretores de bolsa, fotógrafos, estudantes. Peço que me indiquem as diferenças mais significativas, entre as pessoas do dia e da noite. E quase todos se focam na noite. Lembram-se de pequenos detalhes, são cómicos, divagam.

Esquecem-se de falar do dia normal e, focam-se no fascínio que a noite exerce sobre eles. Ninguém me disse odeio a noite. Mas também ninguém me disse gosto do dia.

A noite para todos eles, sugere um sítio onde respiram mais, onde respiram profundamente, mesmo quando não dormem. Onde estão longe da moral comum.

 Os que se lembram de detalhes cómicos, falam-me de beleza e da qualidade da pele que muda. Dizem –me que à noite, os erros de sintaxe nas frases pronunciadas perdem a importância. À noite diz-se sempre “bom dia”! E fala-se mais alto. Uns dizem que falam mesmo de tudo. Outros juram ter de esperar por um pequeno almoço que se repete para revelar algo de especial. Os mais sérios lembram-se de deuses. Tratando assim a questão de forma filosófica. Apolo é o dia, é a civilidade e sobriedade. Dionísio é culpado dos impulsos que se apoderam de nós no escuro.

Dizem-me também que, “à noite se olha sempre duas vezes para a mesma pessoa”. À noite olha-se realmente para quem está ao nosso lado, o medo pode rapidamente transformar-se em desejo. E nesta noite em que muitos encontram loucura outros cultivam calma.

Houve um só amigo que me falou no lusco-fusco, diz que nele encontra a razão. É a única luz que o deixa fazer compromissos com duas realidades .

Sobre as pessoas do dia, guardo esta frase... “É como se fugissem sempre do escuro”. Mas afinal, de que fogem?

Sou um “homem da noite”, aceito o elogio.

Penso qual terá sido o momento em que me tornei num desta “espécie”. Dou voltas à cabeça,  encontro dentro dela uma história esquecida. A noite em que miúdo dormi perto da árvore de natal em minha casa. Tinha estudado possibilidades de fuga, espreitado telhados, medido o tamanho das janelas. Queria experimentar uma dessas discotecas de que se falava. Sabia onde era o Bairro Alto e, sabia que não podia arriscar um salto. Seria fatalmente apanhado. Vesti-me então, agarrei num copo de qualquer coisa. E fiquei a imaginar as luzes da noite até adormecer. Foi perto desse pinheiro, que assinei o meu primeiro pacto com o diabo.

Tiago Manaia

texto publicado no jornal luxfrágil, Novembro 2008.


 

 

 

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tiga ao telefone de Montreal


Queria começar por lembrar algumas das tuas primeiras vezes...

A tua primeira festa?

Foi na Índia, em Goa. Devia ter 8 ou 9 anos. Era uma espécie de rave na praia, com hippies europeus. Os indianos vendiam cigarros, chá e jogavam às cartas. Era ao pé deles que eu queria estar, eles apostavam dinheiro. Os meus amigos insistiam para que fumasse um charro, mas eu tinha medo.

 E quando é que fumaste o teu primeiro charro?

Muito mais tarde. Foi na época das rave parties em 93. Estávamos num campo de futebol e tive a reacção típica: fartei-me de rir, achei que a relva do campo estava muito verde, que era tudo muito bonito.

 O teu primeiro pecado?

Eu nunca pequei, nunca tenho sentimentos de culpa. Podemos errar, nunca pecar.

 A tua primeira vez em Lisboa?

Foi no Lux, há 6 ou 7 anos. Foi dos primeiros sítios onde toquei na Europa. E não me lembro bem onde dormi...

 A primeira vez que pensaste, “sou um DJ”...

Quando tocas para um grupo de pessoas, já és DJ, mesmo que sejam só 15 miúdos numa cave. Com 18 anos, arranjei um trabalho numa discoteca R&B, estavam fechados durante uma semana e deixaram-me pôr música... Acho que ainda não usava o meu nome. As pessoas que frequentavam a discoteca era as mesmas das noites R&B... E eu só tinha 20 discos de techno pesado. Tive de tocar todas as canções, de todos os discos.

As raparigas de cor vinham gritar comigo, “What are you doing?”

Lembro-me dos 50 dólares que me pagaram e daquelas pessoas todas zangadas comigo... Lembro-me de ter poucos discos!

Mesmo assim adorei.

O feeling de ser DJ, sente-se no final de noite... Quando a discoteca fecha, quando estão a limpar tudo e tu arrumas os teus discos... Quando falas com o empregado do bar sobre a noite, quando recebes o teu dinheiro...

 Que tipo de pessoa eras tu quando andavas no liceu? Eras intelectual ou eras daqueles tipos sexy, muito populares?

(Risos) Era muito parecido com aquilo que sou agora. Era um bocado estranho. Não fazia parte do grupo de pessoas cool. Tinha o cabelo muito comprido, era tímido. Não havia nada em mim que fosse normal: o meu nome não era normal, a minha família não era normal, era muito pequeno e não era bom em educação física! (risos)

Mas o meu sentido de humor foi sempre a minha grande força, e eu era um rapaz engraçado.

 E depois tornaste-te num dos DJs mais conhecidos do mundo.

És um DJ com dinâmica de estrela da pop. A tua imagem é muito forte...

Eu não sinto as coisas assim, mas talvez seja o que se vê de fora. Quando falo com pessoas, quando trabalho, quando faço música, não é essa a minha perspectiva. Para mim a imagem é como uma experiência artística. Imagino as capas dos meus discos como uma criança, como a visão que ela teria de uma estrela. O David Guetta ou o Bob Sinclair... Esses sim, são estrelas.

 Então o Tiga que o público conhece não é uma espécie de personagem que inventaste?

É complicado... Eu acho que é um bocado uma personagem. Para mim a imagem sempre foi uma coisa divertida, de fora talvez pareça que levo as coisas demasiado a sério... Mas só me estou a tentar divertir, tento experimentar coisas com outra identidade.

 Vamos falar do teu primeiro álbum a solo “Sexor” (2006).

Os dois primeiros singles tinham voz: em “You Gonna Want Me” usavas a voz do Jake Shears e, no segundo “ Far From Home” eras tu que cantavas... Acho que depois ficámos todos à espera de te ver cantar durante os teus DJ sets, ou pelo menos que fosses nessa direcção...

Bem... Nos últimos 5 anos, eu tenho pensado nisso todos os dias. A evolução natural das coisas, seria dar concertos. Mas sempre fiquei muito nervoso com essa transição, passar de DJ para cantor. Sinto-me tão confortável na minha posição actual. Ser DJ era o meu sonho de miúdo, eu cresci num mundo de techno, onde ser DJ era o objectivo.

Mas como tu dizias, quando o meu álbum saiu devia ter começado a dar concertos. Se não o fizer agora, vou deixar um vazio qualquer.

Sentes muita pressão exterior?

Sim. Toda a gente, mas mesmo toda a gente. O meu manager, as pessoas que trabalham no meu label, os meus fãs... Mas sabes, a vida é igual para todos... Há coisas que sabes que tens de fazer, mas tens de te obrigar a fazê-las. Com o último álbum eu pensei: vou esperar e ver como o público reage à música, ver o que acontece. Depois tive preguiça e nunca o fiz. Desta vez vai ter de ser.

 E gostaste da resposta que o público deu ao disco?

Sim, muito. Eu não gosto de demasiado “hype” à volta das coisas. Acredito numa reacção justa. Acho que tudo o que fiz até agora foi sempre bem recebido. “Sexor” era um bom álbum, mas não era incrível. A única coisa que me desiludiu, foi o single “You Gonna Want Me” parecia-me ser um hit. Quando o toco em qualquer do mundo, todos sabem a letra de cor. Do ponto de vista comercial, com as vendas, fiquei desiludido.

 Uma vez vi uma entrevista tua num canal de televisão francês, na Pink TV...

Sim, isso foi engraçado.

Dizias que todos os teus ídolos eram gay...

Engraçado, ontem li um artigo, em que se dizia que a homossexualidade era um produto da educação superior. Diziam que sociedades educadas, com muita cultura, tinham uma comunidade homossexual maior. Digo-te isto, porque concordo com a ideia. Quando volto atrás e penso nos poetas, escritores, músicos de quem gosto... Muitos são gay. Nos cinema, adoro o Fassbinder, todos os anos arranjo uma desculpa para voltar a ver os filmes dele. Na música, tenho ouvido Morrissey e como é óbvio os Smiths, são incríveis. Também costumava ouvir muito Marc Almond, mas já o ouvi demais. Eu gosto de pessoas. Seja o Prince ou o Bowie, o que eu gosto é de liberdade.

A imprensa usa o termo metrosexual quando se refere a ti. A palavra metrosexual faz-me ficar na dúvida... O que é que querem realmente dizer com isso... Parece-me que estão justificar qualquer coisa... do género ele é heterossexual, apesar de parecer gay...

Eu não gosto dessa palavra. Faz-me pensar em pessoas como o David Beckham, homens que compram muitos cremes para se tornarem perfeitos...

E tu não és assim...

Não... Nem por isso... Eu não tenho medo daquilo que posso ser ou parecer aos olhos dos outros. Quando olho para mim na capa de um disco, só quero pensar que estou bem. Às vezes isso significa que tenha de estar nu, ou que vista um fato. Mas se és um homem e apareces numa fotografia a usar maquilhagem, é obrigatório, as pessoas têm de dizer qualquer coisa.

 O que é que vai mudar com o próximo álbum?

É a primeira vez que vou falar dele, está praticamente pronto. A grande diferença é que foi escrito como um disco normal. É um álbum muito mais musical, as canções são melhores. As músicas vão na mesma direcção de “Far from Home” e “Good as Gold”.

 Gosto muito das letras que escreves...

Então vais ficar mesmo satisfeito desta vez. (risos)

Elas vão em todas as direcções, é um mundo surreal... Em que te inspiras?

Em temas como “Pleasure Ffrom The Bass”, a letra existe para apoiar a batida e não tem um significado particular. Mas depois existem letras que escrevo a partir de um sentimento específico. Começa sempre com uma frase e algumas palavras. “Far From Home” falava de viagens, tentei captar a coisa sentimental que sentimos quando estamos longe dos nossos amigos. “3 Weeks” é sobre a morte da minha mãe.

Quem são as pessoas que estão a trabalhar contigo no próximo álbum?

Não te vou contar muita coisa... Basicamente são as mesmas pessoas que trabalharam no outro (Soulwax), mais o Gonzales e o James Murphy. Conhecer o Gonzales foi como encontrar um irmão.

Porque é que assinas alguns dos teus trabalhos com o nome Dove?

(Risos) Não tem nada a ver com paz. Começou quando eu era novo, era uma personagem de filme que matava pessoas e deixava na mão das vítimas a fotografia de uma pomba. Devo ter achado que era perigoso e exótico. Mas foram os meus amigos que me começaram a chamar assim. Eu nunca lhes pedi nada, ou talvez tenha pedido... (risos) não tem nada a ver com a realidade.

Fala-me das versões que costumas fazer com músicas de outros artistas. Quem trata das autorizações, tu ou a tua editora? Tens algum contacto com as pessoas que cantam o original?

A maioria delas são feitas sem pedir nada a ninguém, por exemplo a versão de “Hot in Here” do Nelly, foi feita numa perspectiva de fã. A música estava em todo o lado, na televisão, na rádio e eu estava num estúdio... Pensei, vou fazer a minha versão! A vantagem de fazer música quando se é DJ, é que pode ser testada de imediato. O que é uma ideia engraçada à tarde, pode ter uma reacção completamente diferente nas pessoas à noite. É credibilidade instantânea. Mas nunca tive nenhuma reacção do Nelly. Acho que muitos dos tipos do hip hop, nem sequer percebem, devem pensar, quem é este gajo que está ali a cantar a minha canção?

 Depois de tantos anos a viajar pelo mundo, acho que nos podes dar um conselho. Como é que se organiza uma mala de viagem?

(Risos) Essa foi a melhor pergunta que já alguma vez me fizeram. É o que eu sei fazer melhor! Juro! Tenho todo o tipo de bagagens, malas para partir durante um dia, outras para dois ou para uma semana... Tenho de dizer isto às pessoas que pagam para me ver: o dinheiro que ganho é investido em malas de viagem!

Passo muito tempo sozinho, posso perder tempo a pensar nessas coisas. Um conselho: levem sempre as coisas de que gostam com vocês.

É importante ter papel e uma caneta comigo. Há algo de muito inspirador no movimento. É fácil ter ideias num avião, na altitude. Quando se ouve música num avião, existe uma emoção natural. Viajar é a coisa mais mágica que existe no mundo.

 Como é que gostavas de ser lembrado?

Gostava de ser lembrado como o rapaz mais engraçado de sempre... Mas tenho ainda muito trabalho pela frente.

 Queria acabar com uma pergunta que fiz uma vez a Dita Von Tesse...

Ela já esteve no Lux!?

 Sim, várias vezes...

Acho que a falhei por pouco, estive aí pouco tempo depois.

Diz-me então, a banda sonora ideal para um striptease?

É aquela canção do Seal (risos e começa a cantar) “Kiss From a Rose”... I’ve been kissed by a rose... Isto era de um filme...

Sim, acho que era de um Batman...

(Canta) I’ve been kissed by a rose... Isto é a música ideal para um espectáculo de strip. Existem dois tipos de striptease: o muito lento e romântico e, o striptease de festa. Eu gosto do que é mais lento (risos)... Mas é um bocado pessoal.

 Tiago Manaia

Publicado no jornal Luxfrágil, Out 2008

 tiga.ca

myspace.com/officialtiga

terça-feira, 24 de junho de 2008

O realizador de Videoclips - Patrick Daughters




Este jovem realizador Americano de 31 anos é o próximo nome à gravar - na memória, disco rígido, ipod ou DVD.

O videoclip que mais viajou este ano entre emails e declarações de amor youtube, terá sido «1234» de Feist. A presença da cantora e as imagens simples deram vida ao mundo dos videoclips, desfeito pela crise que abalou a indústria discográfica.

As alternativas de visionamento propostas pela internet, provocaram investimentos reduzidos por parte das editoras, forçaram uma aposta na simplicidade de ideias. Os videoclips são agora vistos com definições minúsculas em ecrãs de computador ou pequenos ipod.

O universo do videoclip tinha elegido há já alguns anos protagonistas de uma geração, realizadores que tinham uma assinatura especial, eram poucos.

Michel Gondry e o estilo artesanal, Chris Cunningham e as criaturas inventadas, Mark Romanek nas visões futuristas, Spike Jonze e a originalidade cómica, Stéphane Sednaoui e as imagens de gelo, Anton Corbijn no preto e branco perfeito e Jean-Baptiste Mondino em outsider reinventado. Todos tiveram direito (à excepção de Mondino) a uma compilação DVD que celebrava na íntegra carreiras em evolução, dando destaque a um género de ficção apreciado mas pouco reconhecido.

O clip de Feist é genial no conceito, um único “take” capaz de captar graça e euforia, uma cantora e dezenas de bailarinos numa coreografia espalha-alegria, música é embalada pela força lírica das imagens.

Feito como uma homenagem ao trabalho do realizador de comédias musicais Busby Berkeley, não se fica indiferente à simplicidade - o armazém sem cenário de «1234» está repleto de emoção, “ao fim do dia sentíamos todos que tínhamos sido testemunhas de algo especial” explicava Patrick Daughters na conferência do LA Film Festival.

Daughters estudou realização e psicologia na NYU em Nova Iorque e entrou neste mundo a pedido de um antigo colega de escola, membro dos Yeah Yeah Yeahs - «Date With The Night» foi o primeiro vídeo que realizou. Na colagem de imagens de bastidores e performances ao vivo, o ritmo é conseguido nos cortes, na maneira como são montados.

 No mesmo ano, realizou ainda «Maps» também para os Yeah Yeah Yeahs, o universo de Patrick Daughters começava a desenhar-se, um misto de realidade que se dissipa em sonhos de música, parecem contos, que depois voltam a ser realidade.

Esquecem-se os efeitos que impressionam, Daughters é fascinado pela imagem, mas gosta de lhe dar um sabor banal. Apoia-se muitas vezes na emoção dos intérpretes que atravessam os longos takes sem cortes que cria, guarda os momentos comovidos. O passeio de Beck em «Náusea», numa avenida que lhe foge, a corrida e exaustão de Feist num tapete de aeroporto («My Moon, My Man»), os reflexos espelhados da casa-corredor dos Interpol, a emoção que lhes transparece no rosto, desarma-nos enquanto espectador.

Inventar brilho sem esquecer a realidade, é o toque mágico de Daughters, por isso guarda momentos de som directo do que se passa no “plateau”, misturando imagens perfeitas com vozes e ruídos que se sobrepõem ao playback da canção.

Quando lhe são dados meios mais ambiciosos, no caso de «Phantom Limb» dos The Shins, ele explora-os de forma naif - é com crianças que conta os horrores feitos ao longo da história, a inquisição e as batalhas da idade média num jogo infantil. Patrick Daughters parece querer sempre lembrar, tudo não passa de um jogo. O melhor exemplo é o último clip que fez para os Yeah Yeah Yeahs - «Turn Into», Karen O. brinca com um espelho de bolso, e é ele –o espelho- o responsável por todos os delírios luminosos que acontecem no quarto vazio onde canta. Patrick pertence a um núcleo de realizadores, The Directors Bureau, que protege talentos como Sofia e Roman Coppola, Shynola e Melodie Mc Daniel. Seguindo os passos de Spike Jonze (Being John Malkovich), Michel Gondry (Eternal Sunshine of The Spotless Mind) e Mike Mills (The Thumbsucker), também ele se prepara para atacar a ficção no formato longa metragem.

Um buraco na parede pode ser uma porta para um mundo novo, no universo de Daughters, o vazio que se sentiu na indústria discográfica, ajudou-o a afirmar-se.

A tecnologia está cada vez mais desenvolvida no que trata a música, mas a vontade de a comprimir, de a levar para todo o lado, faz com que se esqueçam detalhes. Patrick Daughters brinca com isso, a declaração feita com vídeo de Feist tem efeitos ópticos elaborados e retoques computorizados. Aquilo que parece ser o videoclip mais simples do ano, tem tudo de um conto de fadas. No mundo dele as coisas começam assim, a apontar ideias num caderno...

 

Tiago Manaia

 Texto publicado na fanzine do lux- Blah, Blah, Blah. Dezembro 2007