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terça-feira, 7 de abril de 2009

Foi assim que começámos


Estas linhas que escrevo nasceram na pista de dança. 

Debaixo de luzes estonteantes e música hipnotizante dou por mim a contabilizar horas aos meus voos nocturnos; sinto o cérebro a transformar-se num daqueles cartões de passageiro frequente. Nas linhas aéreas as viagens acumuladas oferecem uma à borla de vez em quando, a borla que me ofereço é a lembrança da primeira vez (na discoteca). 

Lembro-me da preocupação que tive em encontrar na aparência um ar credível, um ar velho quando ainda era novo. Lembro a procura de sapatos, com dois números acima do tamanho real, para inventar um andar falsamente amadurecido. Lembro a camisa de quadrados encarnados, que dentro do armário do meu irmão parecia normal, mas nos meus traços adolescentes ganhava um toque involuntariamente punk. 

Lembro a aprovação dos meus colegas de escola e as palavras encorajadoras que pronunciaram. As nossas forças juntavam-se para vermos um desejo de diversão realizado. Éramos miúdos dos arredores, queríamos fazer parte da cidade. Desconhecíamos a força dos decibéis e por causa deles dançámos. O nosso entusiasmo maravilhado denunciava inexperiência: o coração batia com força, a boca secava de ansiedade, o corpo gritava. Era bonita a inocência.

Na discoteca onde inicio este pensamento, tento perceber se as pessoas têm movimentos que evocam memórias de um entusiasmo parecido com o meu, tento encontrar o calor desinquietante que senti. Mas actualmente fala-se pouco dos tempos passados e o olhar visa um futuro negativo. É por isso necessário engatar esse futuro com forças ancestrais.

Nos dias que correm as recordações assumem-se, estranhamente, nas redes virtuais da internet (Facebook, Myspace, Twitter). Nas páginas onde juntamos amigos de toda a parte, colocam-se também videoclips e links para histórias antigas que nos desenham a personalidade. 

Foi assim que no Facebook perguntei aos meus amigos: “A vossa primeira vez na discoteca como foi?”

Nas dezenas de respostas que recebo, descubro que fomos todos assombrados por padrões de comportamento idênticos, sobretudo na “arte” de sair à noite.

A nossa primeira vez foi parecida, quase igual. Nas especulações, nas expectativas, nos sonhos. 

O nosso olhar escondeu medo e os corações dentro do peito sugeriram sinais idênticos de agitação. Os nossos sentimentos misturaram-se quando tentámos entrar pela porta do desconhecido mundo musical nocturno. 

Constato então que a passagem para dentro da discoteca, nem sempre foi feita nas condições ideais: muitos sentiram-se a invadir um espaço que não era deles, descrevem o olhar das pessoas mais velhas como algo de incomodativo, constatavam que nem todos acolhiam de bom grado aquele debutar nocturno. 

Primeira lição: as pessoas andam no mundo para se dificultar a vida umas às outras, sendo os porteiros perfeitos embaixadores deste ensinamento. Foi por isso obrigatório entrar no jogo deles, encará-
-los como “figuras de treino” perfeitas para praticar a persuasão que nos seria exigida mais tarde, no resto das nossas vidas. Foi por causa destes guardiões de portas que inventámos disfarces de adultos, vestimos outras peles e simulámos poses para desviar a atenção dos nossos traços jovens.

Como quase sempre se agarrava na primeira oportunidade para ir à discoteca, houve quem acabasse por se “baptizar” em cidades longínquas, insólitas de nome (estamos em Portugal não se esqueçam). Alpiarça, Amadora, Peniche, Caldas da Rainha, Cadaval, Cascais e inúmeras vilas na zona do Algarve passariam a ser referências nocturnas para muitas pessoas; foi ali que fumaram os primeiros cigarros e derramaram as primeiras gotas de álcool no sangue. 

O prelúdio das saídas nocturnas viu–se também muitas vezes condenado a matinés, esse género de discoteca que se faz durante a tarde, afastando assim as expectativas dos sonhos. Mas com a primeira saída o sentimento de liberdade ficava irremediavelmente aguçado e fosse onde fosse a primeira vez era momento para festejar, dançar como se não houvesse amanhã.

A discoteca foi um ritual de passagem, foi o momento em que o estatuto da juventude mudou, em que se entrou num género de crescimento qualquer (físico
e psicológico). 

A primeira vez atiçou os acontecimentos que mais tarde embelezaram a adolescência: o primeiro beijo, a dita virgindade, o tal diploma, o primeiro trabalho, o primeiro amor, até chegar aos dias de hoje em que já adultos, sentimos ter um bocado de vida para trás. 

Agora atravessamos um deserto: com a crise financeira inflamada e o discurso festivo atacado, não valerá a pena pensar no início? Encarar o futuro com esse entusiasmo iniciático na cabeça e deixar vir à superfície a nostalgia do passado. Pensar como se pensou na primeira vez, em que tudo foi magia. 

A primeira vez é saber que ainda nos restam inúmeras primeiras vezes, é entusiasmar o coração.

Trata-se de manter os sonhos vivos, como nos tempos em que éramos virgens de tudo. 

Foi assim que começámos, a vender a alma por uma festa. Então toca a lembrar, a primeira vez como é que foi?

texto publicado no jornal Luxfrágil, Abril 2009.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Gosto muito, mas tenho vergonha de gostar

Começar o ano a dizer a verdade, só a verdade é que conta.
Obedeço à minha resolução, digo: gosto muito dos Coldplay, grupo inglês que nada tem a ver com o resto dos meus gostos musicais. Ouvi o single “Viva la Vida” mais de 150 vezes, diz-me o computador. O que faz com que tenha ouvido o tema mais de uma vez por dia, desde a altura em que saiu, até ao momento em que assino este texto.
O pior é achar que o ouvi ainda mais, mas como nem sempre a faixa chega ao fim, não é contabilizada pelo contador perverso que os iPods têm institucionalizado. Assim o meu gosto é duplamente atraiçoado.
A máquina iPod, cria automaticamente uma playlist de “músicas mais tocadas”, um género de top musical. Os seus inventores podiam ter-lhe dado igualmente o nome de “playlist da Denúncia”, ou “Top Traiçoeiro”, pois permite saber o número de vezes que ouvimos uma faixa, com datas e horas exactas de delito.
Para isto servem os gadgets digitais: guardar informação, vestígios de verdade.
A última vez que o Tiga passou por Lisboa, pensei pedir-lhe um autógrafo no meu iPod. Achava o que o seu “Far From Home” era líder incontestado da minha playlist de músicas mais tocadas. Mas ao verificar o objecto, não só fui obrigado a desmentir essa convicção, como lhe detectei outros segredos musicalmente íntimos, que superavam a minha incoerência dos Coldplay (sabem quem é aquela rapariga que canta “A Thousand Miles” num atrelado ao piano pelas ruas da América? Não queiram saber). Envergonhei-me, guardei a ideia que tive de autógrafo numa gaveta (e o iPod também). A minha máquina tinha-me traído e só passados alguns dias percebi o que me revelava.
Quando inventaram tal objecto, Steve Jobs, Jon Rubinstein e Jonathan Ive pensavam certamente que era urgente revelar ao mundo as contradições do gosto humano.
O iPod mudou a nossa maneira de ouvir música, antigamente carregavam-se cinco ou seis CDs, levavam-se duas ou três cassetes na mochila. Escolhiam-se emoções musicais duradouras para uma temporada longe da aparelhagem, sem riscos, levava-se do bom e do melhor. Mas os aparelhos de mp3, ao ampliar as hipóteses de escolha, permitem que se oiça música com outra memória: a afectiva. A partir de uma sensação escolhe-se um tema, a partir de um cheiro uma melodia. Por isso, nem sempre queremos batalhas ao som de M.I.A. dentro de um autocarro e Rihanna pode ser melhor solução para enfrentar a hora de ponta (mesmo que a meia hora que se passou a ouvir “Disturbia” fique gravada na eternidade de um “Top Traiçoeiro”).
Os aparelhos de música “comprimida” permitem que, no meio de tudo aquilo que amamos e cantamos em voz alta, se misture o que amamos e murmuramos em segredo escondidos dentro de casa. A máquina tem espaço para o nosso bom gosto assumido como para o mau gosto refundido.
Na música, a lógica também é: “diz-me o que ouves, e dir-te-ei quem és”. Por isso, jovens alinham nomes de artistas célebres nas páginas myspace, encontram-se na música, ou não? Parece ser como os signos do zodíaco, tenta-se logo do início ver se a combinação funciona, e funciona?
Andamos desde os tempos da escola mais remota, a construir uma imagem para nos proteger. Desenhando a personalidade longe de incoerências estéticas. Andamos disfarçados e não nos lembrarmos que, nos nossos segredos, existe algo de delicioso. Escondemo-nos, escondemos a verdade na vontade inofensiva de seguir um ideal.
Por isso, pedi a um grupo de conhecidos para me confessarem hábitos secretos.
“Quem és tu?”, mas perguntado de outra maneira: “De que têm vergonha de gostar?”.
A música era um pretexto de um acto de contrição/confissão que podia alargar-
-se para conter outros vícios e até fetiches. Os que não alinharam pensaram certamente que “as coisas deliciosas não devem ser publicitadas; pois podem perder o seu encanto”. Mas quem disse esta frase também entrou no jogo… Esquecendo a sua regra de charme cultivado.
Claro, prometi não revelar nomes e transcrever somente detalhes.
Assim, contabilizei um número sem fim de raparigas e rapazes “alternativos” que dizem voar ao som de Roísín Murphy, Feist, New Order ou The Smiths. Quando na verdade, Beyoncé, Leona Lewis, ou Roxette são capazes de os levar para bem mais longe. A banda sueca é um excelente exemplo de como o bom gosto pode ser ameaçado por uma música: a pessoa que me confessou esta fraqueza estilística ameaçou-me de morte.
As músicas fáceis, que se apoderam do ouvido, quase nunca são adquiridas. Preferindo continuar secretos, os seus ouvintes esperam por uma passagem na rádio, tentam não ser confrontados com a frase “não acredito… tu, a ouvir isto?” (e lá se vai a reputação).
E que outros encantos comprometem as pessoas?
Ninguém se apresenta a um desconhecido a dizer que chora sempre com o mesmo filme romântico. E quando se tenta parecer dono de alguma razão, é preferível não falar de uma estranha obsessão por tabletes de chocolate devoradas na cama ao domingo de manhã. Também é frequente conhecermos pessoas que ainda têm medo das personagens que lhes infernizaram a infância, mas nunca vamos saber quem elas são.
Mesmo em tom de discrição estes segredos assustam. Falam de sentimento, trazem a palavra vergonha à boca. Mesmo que sejam o mais verdadeiro que se tem para oferecer a alguém de próximo, continuam escondidos.
Quando os segredos se desviam para o fetiche, ou para uma lógica pessoal, conseguem revelar pessoas mais sonhadoras, próximas da ficção. E eu, prefiro pensar que o mundo é feito de pessoas assim: miúdas a atravessar a rua longe da passadeira, desafiando o dia-a-dia carregado de prudências; rapazes a sonhar poder vestir uma saia e desafiar as convenções; homens, enquanto nadam, pensam na possibilidade de se transformarem em golfinhos,
Os computadores foram inventados por nós neste tempo que nos transformou em Homens formatados. As máquinas apontam erros e nós fingimos não os ver. Mas podemos ser terroristas na mesma, passar a fronteira.
Não terão Steve, Jon e Jonathan inventado no iPod uma solução para transportarmos a verdade sempre connosco?
E a partir de uma música assume-se o que não é assumível.